A escrever nas nuvens
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publicado por Girassol, em 21.05.11 às 18:23link do post | favorito

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus amigos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso, arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas do hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,


Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste mundo que me confesse que uma vez já foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos

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música: Pequenos deuses caseiros - Manuel Freire

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publicado por Girassol, em 06.01.11 às 22:59link do post | favorito

FRUTO PROIBIDO
.
Sonhando-te, num sonho amargo e doce,
Eis que desnuda e virginal te vejo,
Ave, rosa e mulher, perfume e harpejo,
Feliz de mim, se eu teu amante fosse!
.
Basta que a tua sombra por mim roce
Para que eu fulja num solar lampejo!
E se num sonho enganador te beijo,
Como um rei, me coroa a tua posse!
.
Sonhos... são sonhos! qualquer brisa os leva,
Deixando atrás só desconsolo e treva!
Dos teus beijos eu tenho sede e fome,
.
Mas sem nunca os provar, por meus pecados
Contento-me em beijar teu lindo nome,
Se o digo, ébrio de amor, de olhos fechados...

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música: Everly Brothers - All I have to do is dream

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